Nanotecnologia: Cosméticos avançados


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A nanotecnologia em cosméticos utiliza materiais, estruturas ou sistemas extremamente pequenos para melhorar determinadas características de uma formulação. Dependendo da tecnologia empregada, ela pode ajudar a proteger ingredientes instáveis, melhorar sua dispersão, modificar seu perfil de liberação ou favorecer sua deposição em regiões específicas da pele.

Isso não significa, entretanto, que todo cosmético identificado como “nano” seja automaticamente mais eficaz ou que seus ingredientes sempre alcancem camadas profundas da pele.

Na ciência cosmética, o resultado depende de uma combinação de fatores: o tipo de sistema utilizado, o ingrediente incorporado, o tamanho e a distribuição das partículas, o veículo cosmético, a estabilidade da fórmula e, principalmente, os testes realizados no produto final.

O que é nanotecnologia?

Nanotecnologia é o campo que estuda e utiliza materiais em dimensões extremamente pequenas.

Um nanômetro corresponde a um bilionésimo de metro. Como referência, diferentes definições científicas e regulatórias costumam considerar materiais com dimensões próximas da faixa de 1 a 100 nanômetros, embora os critérios possam variar de acordo com o tipo de material e a finalidade de uso. [1]

Nessa escala, alguns materiais podem apresentar propriedades diferentes daquelas observadas em tamanhos maiores. Mudanças na área de superfície, estabilidade, interação com outros componentes e comportamento de dispersão podem abrir novas possibilidades para a formulação de cosméticos.

Na prática, a nanotecnologia não é um único ingrediente. Ela representa um conjunto de estratégias utilizadas para organizar, proteger, transportar ou disponibilizar determinadas substâncias dentro de uma formulação.

Como a nanotecnologia é aplicada aos cosméticos?

Uma das aplicações mais conhecidas é a incorporação de ingredientes em estruturas chamadas nanocarreadores.

O ingrediente pode ficar dissolvido, disperso, preso ou encapsulado dentro de uma estrutura muito pequena. Essa estrutura funciona como um veículo, ajudando a protegê-lo ou a controlar a forma como ele interage com a fórmula e com a superfície da pele.

Entre os sistemas mais estudados estão:

Lipossomas

Lipossomas são pequenas vesículas formadas principalmente por fosfolipídios, componentes com características semelhantes às de estruturas presentes nas membranas celulares.

Eles podem incorporar substâncias com afinidade por água ou por óleo, dependendo de onde o ingrediente fica localizado dentro da vesícula.

Nos cosméticos, podem ser utilizados para melhorar a incorporação, a proteção e a disponibilização de determinados ativos.

Nanoemulsões

Nanoemulsões são dispersões formadas por gotículas muito pequenas de óleo em água ou de água em óleo.

O tamanho reduzido das gotículas pode favorecer uma distribuição mais uniforme, melhorar o aspecto visual da formulação e contribuir para texturas leves e de boa espalhabilidade.

Embora sejam chamadas de nanoemulsões, elas não são necessariamente iguais a nanocápsulas. Cada sistema possui estrutura, comportamento e finalidade diferentes.

Nanopartículas lipídicas sólidas

As nanopartículas lipídicas sólidas possuem uma matriz formada por lipídios que permanecem sólidos em temperatura ambiente e corporal.

Essa matriz pode ajudar a proteger ingredientes sensíveis e modificar sua liberação. Quando aplicadas à pele, algumas formulações também formam um filme superficial que pode contribuir para reduzir a perda de água.

Carreadores lipídicos nanoestruturados

Os carreadores lipídicos nanoestruturados, também chamados de NLCs, combinam lipídios sólidos e líquidos.

Essa organização cria uma matriz menos ordenada, o que pode facilitar a incorporação de determinados ingredientes e reduzir sua expulsão durante o armazenamento.

Esses sistemas têm sido estudados para hidratação, proteção de ingredientes, melhora da estabilidade e administração tópica.

Nanocápsulas e nanoesferas

Nas nanocápsulas, o ingrediente costuma ficar envolvido por uma estrutura externa. Nas nanoesferas, ele pode estar distribuído em uma matriz.

A escolha entre esses sistemas depende das características do ingrediente, da finalidade da formulação e do perfil de liberação desejado.

Quais benefícios a nanotecnologia pode oferecer?

Os benefícios não são iguais para todas as tecnologias. Ainda assim, algumas possibilidades são recorrentes na pesquisa cosmética.

Proteção de ingredientes instáveis

Determinados ingredientes podem sofrer degradação quando entram em contato com luz, oxigênio, calor ou outros componentes da fórmula.

O encapsulamento pode criar uma barreira parcial entre o ingrediente e o ambiente externo, contribuindo para sua estabilidade.

Esse benefício precisa ser comprovado por estudos comparativos de estabilidade. A simples presença de um nanocarreador não garante que o ingrediente permanecerá estável durante toda a vida útil do produto.

Melhora da dispersão e da solubilidade

Alguns ingredientes apresentam baixa solubilidade em água ou dificuldade de incorporação em determinadas bases cosméticas.

Sistemas nanoestruturados podem facilitar sua dispersão e contribuir para uma formulação mais uniforme.

Essa característica também pode influenciar textura, transparência, espalhabilidade e acabamento sensorial.

Liberação modificada ou controlada

Dependendo da composição do sistema, o ingrediente pode ser liberado de forma gradual.

Essa liberação pode ajudar a manter sua disponibilidade por mais tempo na região de aplicação ou reduzir a liberação imediata de toda a quantidade incorporada.

Entretanto, expressões como “liberação prolongada” ou “ação por várias horas” devem ser utilizadas somente quando houver testes específicos que comprovem esse comportamento.

Deposição na superfície ou em regiões específicas da pele

Alguns nanocarreadores podem favorecer maior contato com o estrato córneo, deposição nos folículos ou retenção em determinadas regiões.

Isso é diferente de afirmar que toda nanopartícula atravessa a pele ou alcança a derme.

A pele é uma barreira eficiente, e o comportamento de cada sistema depende de fatores como tamanho, composição, carga superficial, flexibilidade, solubilidade e condição da barreira cutânea.

Em cosméticos, atuar de maneira eficiente na superfície e no estrato córneo pode ser exatamente o objetivo da formulação. “Mais profundo” não significa necessariamente “melhor”.

Experiência sensorial

A nanotecnologia também pode ser usada para melhorar características que o consumidor percebe diretamente, como:

  • espalhabilidade;
  • leveza;
  • aparência da fórmula;
  • absorção percebida;
  • uniformidade;
  • menor sensação oleosa.

A experiência sensorial é importante porque influencia a regularidade de uso. Uma fórmula avançada só se torna relevante na rotina real quando também é agradável e prática de aplicar.

O que os estudos científicos já demonstraram?

Os estudos ajudam a compreender o potencial da nanotecnologia, mas seus resultados devem ser interpretados dentro do contexto de cada fórmula.

Nanocarreadores lipídicos e hidratação

Um estudo realizado com 20 voluntárias avaliou diferentes formulações de carreadores lipídicos nanoestruturados aplicadas nos antebraços durante sete dias. [3]

As formulações aumentaram significativamente a hidratação em comparação com áreas não tratadas. Os pesquisadores também observaram redução da perda de água transepidérmica, especialmente em algumas composições com maior capacidade de formar um filme superficial.

Esse resultado mostra que determinados sistemas lipídicos podem contribuir para hidratação e oclusividade.

Ele não significa, porém, que qualquer cosmético nanoestruturado produzirá o mesmo efeito. O estudo avaliou formulações específicas, em uma amostra pequena e durante um período curto.

Proteção e entrega de ingredientes lipossolúveis

Em um estudo de 2022, pesquisadores desenvolveram carreadores lipídicos nanoestruturados contendo óleo de espinheiro-marítimo. [4]

A formulação otimizada apresentou partículas próximas de 105 nanômetros e eficiência de encapsulação superior a 90%. Nos modelos avaliados, o sistema aumentou a quantidade de vitamina E disponibilizada na pele em comparação com o óleo livre.

Trata-se de uma evidência de laboratório sobre uma formulação específica. Esses resultados demonstram potencial tecnológico, mas não devem ser transformados diretamente em promessas para outros produtos ou ingredientes.

Nanolipossomas flexíveis

Um estudo publicado em 2025 avaliou nanolipossomas flexíveis contendo pterostilbeno, um composto com baixa solubilidade em água e sensibilidade à luz e ao oxigênio. [5]

O sistema desenvolvido apresentou partículas em torno de 60 nanômetros e eficiência de encapsulação de aproximadamente 96%.

Nos testes realizados, houve maior retenção cutânea e liberação prolongada em comparação com outras formas do ingrediente. Uma formulação em creme com 0,4% foi avaliada em voluntários durante 28 dias, com melhora nos parâmetros de elasticidade e tonalidade analisados pelos pesquisadores.

Embora os resultados sejam promissores, eles pertencem a essa formulação, nessa concentração e nesse período de avaliação.

Ácido hialurônico de tamanho reduzido

Em um estudo com 33 mulheres acompanhadas durante oito semanas, uma linha cosmética contendo ácido hialurônico descrito como nano-hialurônico foi avaliada por métodos instrumentais. [6]

Os pesquisadores relataram melhora de hidratação, elasticidade e profundidade de rugas nas regiões analisadas.

Esse estudo é frequentemente citado em conteúdos sobre nano-hialurônico, mas possui limitações importantes: amostra pequena, avaliação de uma linha específica e ausência de comparação ampla com diferentes tecnologias.

Além disso, ácido hialurônico de baixo peso molecular não é necessariamente a mesma coisa que ácido hialurônico nanoencapsulado.

O peso molecular descreve o tamanho da cadeia do polímero. Já a nanoencapsulação indica que o ingrediente foi incorporado a uma estrutura transportadora. Os dois conceitos podem aparecer juntos ou separadamente.

Nanotecnologia faz os ativos penetrarem mais profundamente?

Não é correto responder que sim em todos os casos.

Alguns sistemas aumentam a deposição de ingredientes no estrato córneo. Outros favorecem a retenção nos folículos. Estruturas flexíveis podem apresentar comportamento diferente de partículas rígidas.

Também existem sistemas desenvolvidos principalmente para:

  • proteger o ingrediente dentro da fórmula;
  • melhorar a dispersão;
  • controlar a liberação;
  • formar um filme sobre a pele;
  • aumentar a hidratação superficial.

Portanto, a profundidade de atuação não pode ser determinada apenas pela palavra “nano”.

Para afirmar que um ingrediente alcança determinada camada da pele, são necessários métodos específicos de avaliação, como estudos de permeação, microscopia, espectroscopia ou análises em modelos de pele.

Todo cosmético com nanotecnologia é mais eficaz?

Não.

A tecnologia pode melhorar uma característica da formulação, mas o resultado final depende de todo o conjunto.

É necessário considerar:

  • qual sistema foi utilizado;
  • qual ingrediente foi incorporado;
  • qual é a concentração;
  • como está a estabilidade;
  • qual é o veículo cosmético;
  • como o produto é aplicado;
  • quais testes foram realizados;
  • qual benefício foi efetivamente medido.

Um estudo sobre uma nanopartícula isolada não comprova o desempenho de qualquer cosmético que utilize uma tecnologia semelhante.

Da mesma forma, um estudo sobre uma matéria-prima não substitui um teste realizado com o produto final.

A nanotecnologia em cosméticos é segura?

A segurança deve ser avaliada caso a caso.

Não é correto afirmar que todo nanomaterial é perigoso, assim como não é correto declarar que toda nanotecnologia é automaticamente segura.

A avaliação considera fatores como:

  • composição química;
  • tamanho e distribuição das partículas;
  • formato;
  • carga superficial;
  • solubilidade;
  • capacidade de formar agregados;
  • concentração;
  • área e frequência de aplicação;
  • possibilidade de inalação;
  • condição da pele;
  • comportamento do material no produto final.

O Comitê Científico de Segurança do Consumidor da Comissão Europeia mantém uma orientação específica para a avaliação de nanomateriais em cosméticos. A revisão publicada em 2023 reforça a necessidade de analisar características como dissolução, dispersão, formato, comportamento biológico e diferentes possibilidades de exposição. [2]

Isso mostra por que a segurança não deve ser presumida apenas com base no tamanho da partícula.

Nanotecnologia e hidratação da pele

Na hidratação, sistemas nanoestruturados podem cumprir funções diferentes.

Alguns carreadores lipídicos formam um filme que reduz a evaporação de água. Outros ajudam a proteger ingredientes hidratantes ou a melhorar sua distribuição na formulação.

Também podem existir estratégias que combinam ingredientes de diferentes tamanhos moleculares, embora isso não represente necessariamente nanoencapsulação.

Uma formulação hidratante eficiente não depende apenas de uma tecnologia. Ela precisa considerar:

  • atração e retenção de água;
  • reposição de componentes lipídicos;
  • redução da perda de água;
  • conforto;
  • compatibilidade com a barreira cutânea;
  • sensorial adequado para o uso contínuo.

Por isso, o mais importante não é procurar apenas a palavra “nano” no rótulo, mas entender a proposta completa do produto.

Como avaliar uma alegação de nanotecnologia?

Ao encontrar um cosmético que destaca nanotecnologia, vale observar:

  • A marca explica qual tecnologia utiliza?
  • O ingrediente está nanoencapsulado ou apenas possui baixo peso molecular?
  • Existe documentação técnica da matéria-prima?
  • Há estudo de estabilidade?
  • O benefício foi testado na matéria-prima ou no produto final?
  • A comunicação diferencia potencial tecnológico de resultado comprovado?
  • A alegação é específica ou apenas utiliza “nano” como palavra de impacto?

Marcas responsáveis devem explicar tecnologia com clareza e evitar transformar conceitos científicos em promessas exageradas.

Ciência cosmética para a rotina real

A nanotecnologia representa um avanço importante para o desenvolvimento de cosméticos, especialmente quando ajuda a proteger ingredientes, melhorar sua incorporação ou criar sistemas de liberação mais adequados.

Mas a inovação real não está apenas em utilizar partículas menores.

Ela consiste em escolher uma tecnologia coerente com o ingrediente, desenvolver uma formulação estável, avaliar sua segurança e demonstrar o benefício no produto final.

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Perguntas frequentes

O que significa nanoencapsulado?

Significa que um ingrediente foi incorporado ou envolvido por uma estrutura de dimensões muito pequenas. A função pode ser protegê-lo, melhorar sua dispersão ou modificar sua liberação.

Nanotecnologia e baixo peso molecular são a mesma coisa?

Não. Baixo peso molecular descreve o tamanho da cadeia de uma substância. Nanoencapsulação descreve sua incorporação em um sistema transportador.

Todo nanocosmético penetra profundamente na pele?

Não. Alguns sistemas permanecem principalmente na superfície, outros se depositam no estrato córneo ou nos folículos. O comportamento precisa ser avaliado para cada formulação.

Nanotecnologia pode melhorar a hidratação?

Alguns sistemas lipídicos podem contribuir para a hidratação e para a redução da perda de água. Esse efeito depende da composição e da formulação final.

Um ingrediente nano é sempre mais eficaz?

Não. O resultado depende da tecnologia, da concentração, do veículo e dos testes realizados. O tamanho reduzido, sozinho, não comprova eficácia superior.

A nanotecnologia pode ser usada em pele sensível?

Pode estar presente em produtos destinados a diferentes tipos de pele, mas a tolerabilidade depende da fórmula completa. Pessoas com pele sensibilizada ou condições dermatológicas devem avaliar o produto como um todo.

Referências científicas

  1. EUROPEAN COMMISSION. Commission Recommendation of 10 June 2022 on the definition of nanomaterial (2022/C 229/01). Official Journal of the European Union, C 229, p. 1–5, 14 jun. 2022. Acesso em: 18 jun. 2026.
  2. SCIENTIFIC COMMITTEE ON CONSUMER SAFETY — SCCS. Guidance on the Safety Assessment of Nanomaterials in Cosmetics. 2. ed. rev. SCCS/1655/23. European Commission, 6 jun. 2023. Acesso em: 18 jun. 2026.
  3. LOO, C. H.; BASRI, M.; ISMAIL, R.; LAU, H. L. N.; TEJO, B. A.; KANTHIMATHI, M. S.; HASSAN, H. A.; CHOO, Y. M. Effect of compositions in nanostructured lipid carriers (NLC) on skin hydration and occlusion. International Journal of Nanomedicine, v. 8, p. 13–22, 2013. DOI: 10.2147/IJN.S35648.
  4. CHAIYASUT, C.; SIVAMARUTHI, B. S.; JUNGSINYATAM, P.; TANSRISOOK, C.; JINARAT, D.; CHAIYASUT, K.; PEERAJAN, S.; RUNGSEEVIJITPRAPA, W. Development and evaluation of Elaeagnus rhamnoides (L.) A. Nelson oil-loaded nanostructured lipid carrier for improved skin hydration. Applied Sciences, v. 12, n. 16, art. 8324, 2022. DOI: 10.3390/app12168324.
  5. MENG, H.; XIONG, J.; HU, W.; HUANG, Z.; HE, Y.; ZHANG, Z.; PEI, X. Flexible pterostilbene nanoliposomes for enhanced skin delivery: elasticity and brightening potential. Current Pharmaceutical Biotechnology, publicação antecipada online, 21 out. 2025. DOI: 10.2174/0113892010392765250919183207.
  6. JEGASOTHY, S. M.; ZABOLOTNIAIA, V.; BIELFELDT, S. Efficacy of a new topical nano-hyaluronic acid in humans. Journal of Clinical and Aesthetic Dermatology, v. 7, n. 3, p. 27–29, 2014. PMID: 24688623; PMCID: PMC3970829.
  7. SALVIONI, L.; MORELLI, L.; OCHOA, E.; LABRA, M.; FIANDRA, L.; PALUGAN, L.; PROSPERI, D.; COLOMBO, M. The emerging role of nanotechnology in skincare. Advances in Colloid and Interface Science, v. 293, art. 102437, 2021. DOI: 10.1016/j.cis.2021.102437.
  8. OLIVEIRA, C.; COELHO, C.; TEIXEIRA, J. A.; FERREIRA-SANTOS, P.; BOTELHO, C. M. Nanocarriers as active ingredients enhancers in the cosmetic industry: the European and North America regulation challenges. Molecules, v. 27, n. 5, art. 1669, 2022. DOI: 10.3390/molecules27051669.
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